O que a Volta ao Algarve nos ensinou sobre a configuração e o desempenho da bicicleta
- Fernando Isaac
- 3 de mar.
- 4 min de leitura
Em cada época, eventos como a Volta ao Algarve posicionam o ciclismo profissional no centro das atenções. Surgem novos participantes, os equipamentos evoluem e as técnicas dos ciclistas mudam subtilmente, detalhes que não escapam a quem estiver atento.
Mas o que realmente importa não é o que parece novo.
É a razão pela qual essas opções existem.
Na iBIKE STUDIO, não nos limitamos a sentir curiosidade ou a seguir tendências; o nosso propósito em participar na Volta ao Algarve é pelas razões certas. Para nós, corridas como esta têm tudo a ver com a tecnologia: é uma oportunidade para analisar as configurações das bicicletas, a posição das equipas e o equipamento utilizado. Desde o World Tour até ao ProTeam, conseguimos aprofundar o raciocínio por trás das escolhas feitas.
Porque, quando olhamos com atenção, uma coisa fica bem clara: o equipamento não existe de forma isolada e o melhor equipamento, por si só, não se traduz necessariamente em ganho de desempenho.
A ilusão de que o equipamento é um meio para alcançar o sucesso
A cada ano que passa, as bicicletas profissionais sofrem melhorias. Os selins, as manivelas e os painéis de comando são alvo de um processo de melhoria contínua, em resposta aos avanços na biomecânica, na aerodinâmica e aos regulamentos da UCI.
No entanto, há uma diferença fundamental que muitas vezes passa despercebida: os ciclistas profissionais não alteram o corpo para se adaptarem à bicicleta, pelo contrário, é a bicicleta que se adapta ao corpo do ciclista. E estes atletas têm de competir em condições altamente específicas:
volume e carga de treino extremos;
monitorização contínua do estado fisiológico e biomecânico;
e restrições técnicas e regulamentares rigorosas.
Cada configuração é o resultado de testes constantes, reavaliações e ajustes precisos. Nada é deixado ao acaso!
Se gostas de bicicleta, mas não és profissional, talvez não saibas que copiar as configurações dos profissionais não é a melhor ideia.

Decisões, decisões: por que copiar as configurações dos profissionais não é solução
Durante a Volta ao Algarve, houve vários aspetos que se destacaram, não como tendências a imitar, mas como exemplos de tomada de decisão:
A individualidade dos ciclistas foi claramente priorizada na UAE Team Emirates - XRG, onde os ciclistas podem escolher as marcas e modelos de sapatos que melhor se adaptam às características dos seus pés, podendo ainda escolher o tamanho e o tipo de calçado. Entre os sete ciclistas, observámos a utilização de quatro marcas diferentes: Bont Cycling Pty Ltd, Nimbl.cc, Specialized Bicycle Components e Q36.5.
Apesar das obrigações de patrocínio, a equipa Red Bull – BORA – hansgrohe demonstrou flexibilidade na escolha do selim, com a Specialized Bicycle Components a fornecer diversos modelos, formas e materiais de selim que se adaptam à rotação pélvica, à postura e ao estilo de condução.
A equipa INEOS Grenadiers Cycling apresentou uma configuração mais sofisticada do selim, com vários ciclistas a colocarem o selim Prologo totalmente à frente nos trilhos e a utilizar espigões de selim em linha (sem desvio) nas bicicletas Pinarello. Estas alterações ajudam a equilibrar o ciclista e a bicicleta, tornando-a mais estável a altas velocidades.
Os ciclistas da Lotto-Intermarché adotaram posições mais sustentáveis, com espaçadores adicionais e uma diferença de altura menor entre o selim e o guiador. Segundo Kevin Van Staeyen, a biomecânica é uma «sinergia entre a mente, o corpo e a bicicleta».
A estreita relação entre a biomecânica e a aerodinâmica ficou evidente na Lidl-Trek, onde alguns ciclistas optaram por configurações separadas do guiador e da haste em vez de cockpits totalmente integrados. Estas decisões baseiam-se em avaliações biomecânicas exaustivas lideradas por Yeyo Corral e não apenas em tendências.
Neste contexto, as opções são bastante sensatas. Ao iniciarmos a prática do ciclismo, é comum cometermos erros que podem resultar em desconforto, ineficiência ou até lesões. Porquê? Porque os profissionais e os amadores diferem fundamentalmente em termos de composição corporal, flexibilidade, fisiologia, carga de treino e condições reais de condução. É comum os amadores limitarem-se a copiar o resultado final, sem compreenderem realmente como se faz.
BIKE FIT: um processo técnico de tomada de decisões
Recentemente, a equipa realizou um pequeno inquérito para saber o que os ciclistas pensam sobre o desempenho: que detalhe "invisível" acham que tem maior impacto no desempenho?
As respostas centraram-se em:
palmilhas personalizadas - 20%;
posição das travas - 30%;
e inclinação do selim - 50%.
O que chama a atenção não é a classificação, mas sim o que estas três têm em comum.
Nenhuma delas é visível à primeira vista. Nenhuma faz com que uma moto pareça mais rápida.
No entanto, todos podem ter um impacto significativo no conforto, na eficiência, na estabilidade e no risco de lesões.
No ciclismo profissional, cada pormenor é ajustado com extremo cuidado. As posições das são medidas em milímetros, a inclinação do selim em frações de grau e as palmilhas são personalizadas de modo a controlar a distribuição da carga e a transferência da força. Marcas como a SOLESTAR GmbH e a gebioMized destacam-se neste setor graças a este nível de precisão.
Mas, no caso dos ciclistas amadores, esses mesmos detalhes são frequentemente ignorados, apesar de terem um impacto desproporcional no desempenho. E é aqui que o BIKE FIT pode tornar-se um pouco confuso.
Um BIKE FIT não é uma solução rápida, um conjunto de números ou algo que se faz uma única vez. Na sua essência, é um processo técnico de tomada de decisões, orientado pelo corpo do ciclista, pelos seus padrões de movimento, objetivos e limitações.
O que corridas como a Volta ao Algarve nos ensinam não é o que devemos copiar, mas sim a forma como os profissionais pensam: testam, adaptam-se, reavaliam e, acima de tudo, aceitam que a posição muda com o tempo.
Para os ciclistas amadores, a lição mais importante é bastante clara: a precisão supera a imitação e um melhor desempenho resulta de escolhas conscientes e personalizadas e não de seguir tendências.
Mais do que qualquer equipamento, é a lição mais valiosa que o ciclismo profissional continua a oferecer.

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