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O que torna um ajuste na bicicleta realmente adequado?

18 de set.
3 min de leitura

Recentemente colocámos uma pergunta simples: quando fazes alterações na bicicleta, em que confias mais?


As respostas dividiram-se entre experiência, dados e tecnologia e tentativa e erro, com os dados e tecnologia a receberem a maioria dos votos.


Os resultados em si não são particularmente relevantes. A pergunta que está por detrás deles é muito mais interessante:


O que nos dá realmente confiança para afirmar que uma alteração na bicicleta é adequada?

Os ciclistas fazem ajustes constantemente. Baixamos ou subimos o selim porque sentimos desconforto. Alteramos o comprimento do avanço porque a posição parece demasiado longa. Movemos os cleats porque surge dor no joelho. Por vezes replicamos aquilo que funcionava noutra bicicleta, seguimos a recomendação de outro ciclista ou recorremos a medições e tecnologia.


Todas estas abordagens podem fornecer informação útil.


Nenhuma delas, isoladamente, valida necessariamente uma decisão.



A experiência é importante. Mas o contexto é essencial.

A experiência permite-nos reconhecer padrões.


Um ciclista pode perceber, depois de milhares de quilómetros, que determinada posição do selim lhe proporciona maior conforto. Da mesma forma, um Bike Fitter começa a reconhecer padrões de movimento após observar centenas de ciclistas.


Esse conhecimento tem valor.


Mas existe também o risco de estabelecermos relações de causa-efeito demasiado rapidamente. Se baixar o selim reduz uma dor no joelho é tentador concluir que a altura do selim era o problema. Talvez fosse. Mas essa alteração pode simultaneamente ter modificado o movimento da pélvis, a mecânica da pedalada, a distribuição de carga ou a interação com o próprio selim.


Observámos uma resposta. Perceber por que razão essa resposta ocorreu é uma questão diferente.



Os dados não eliminam a necessidade de interpretação

A tecnologia acrescenta outra camada de informação.


Hoje conseguimos quantificar cinemática articular, distribuição de pressão, assimetrias de movimento, atividade muscular e muitas outras variáveis difíceis de observar com precisão apenas visualmente.

Mas medir não é o mesmo que compreender.


Um determinado ângulo do joelho não é, isoladamente, bom ou mau. O mesmo acontece com uma assimetria ou determinado padrão de pressão.


Precisamos de perceber o que esse valor significa naquele ciclista, naquela tarefa e naquelas condições.

Dados sem contexto podem até criar uma falsa sensação de certeza. Em vez de substituirmos uma opinião subjetiva por uma verdade objetiva, corremos o risco de substituir uma suposição por um número.


E a tentativa e erro?

Também não deve ser automaticamente entendida como uma abordagem errada.


Na realidade, alterar uma variável e observar a resposta é parte fundamental de muitos processos de Bike Fit. O problema surge quando a tentativa e erro não é controlada.


Se alterarmos várias variáveis simultaneamente, ou se não definirmos previamente aquilo que pretendemos melhorar, torna-se difícil perceber o que produziu determinado resultado.


“Estou melhor” é informação importante.


Mas podemos perguntar mais: O que melhorou? Em que condições? O que mudou no movimento? Resolvemos o problema original ou apenas transferimos a compensação para outro local?



A perceção do ciclista e as medições precisam uma da outra


Um dos aspetos mais interessantes do Bike Fit é que aquilo que o ciclista sente e aquilo que observamos nem sempre coincidem.


Isso não significa que o ciclista esteja errado. Dor, desconforto, estabilidade, confiança e perceção de esforço são informações fundamentais. Mas o local onde um sintoma é sentido não corresponde necessariamente à origem do problema.


Da mesma forma, um padrão de movimento aparentemente diferente não significa necessariamente que exista algo a corrigir.


É aqui que uma avaliação se torna mais importante do que qualquer medição isolada.


Temos de analisar o historial e as queixas do ciclista, as suas capacidades e limitações físicas, a estratégia de movimento, o equipamento, os objetivos e as exigências reais em que a bicicleta será utilizada.


Depois, podemos cruzar essa informação com dados objetivos e, sobretudo, observar como todo o sistema responde quando introduzimos uma alteração.



O Bike Fit não é a procura da perfeição


Talvez esta seja a distinção mais importante. Raramente existe um único número que determine a posição correta.


O objetivo não é fazer com que todos os ciclistas se enquadrem num conjunto pré-definido de ângulos ou coordenadas. É compreender a interação entre uma determinada pessoa e uma determinada bicicleta.


E essa interação é dinâmica.


Alterar a altura do selim pode modificar muito mais do que a extensão do joelho. Alterar o alcance pode influenciar a carga nos membros superiores, a posição da pélvis ou a forma como o ciclista interage com o selim.


Cada ajuste existe dentro de um sistema.


Por isso, antes da próxima alteração na bicicleta, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Qual deveria ser este valor?”


Mas sim:

“O que estou a tentar alterar e que evidência me permitirá concluir que realmente o melhorei?”


É nessa diferença que um simples ajuste se transforma numa avaliação.



Fernando Isaac

Bike Fit & Biomechanics Specialist

CEO iBIKE Studio


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