O que torna um ajuste na bicicleta realmente adequado?
Recentemente colocámos uma pergunta simples: quando fazes alterações na bicicleta, em que confias mais?
As respostas dividiram-se entre experiência, dados e tecnologia e tentativa e erro, com os dados e tecnologia a receberem a maioria dos votos.
Os resultados em si não são particularmente relevantes. A pergunta que está por detrás deles é muito mais interessante:
O que nos dá realmente confiança para afirmar que uma alteração na bicicleta é adequada?
Os ciclistas fazem ajustes constantemente. Baixamos ou subimos o selim porque sentimos desconforto. Alteramos o comprimento do avanço porque a posição parece demasiado longa. Movemos os cleats porque surge dor no joelho. Por vezes replicamos aquilo que funcionava noutra bicicleta, seguimos a recomendação de outro ciclista ou recorremos a medições e tecnologia.
Todas estas abordagens podem fornecer informação útil.
Nenhuma delas, isoladamente, valida necessariamente uma decisão.
A experiência é importante. Mas o contexto é essencial.
A experiência permite-nos reconhecer padrões.
Um ciclista pode perceber, depois de milhares de quilómetros, que determinada posição do selim lhe proporciona maior conforto. Da mesma forma, um Bike Fitter começa a reconhecer padrões de movimento após observar centenas de ciclistas.
Esse conhecimento tem valor.

Mas existe também o risco de estabelecermos relações de causa-efeito demasiado rapidamente. Se baixar o selim reduz uma dor no joelho é tentador concluir que a altura do selim era o problema. Talvez fosse. Mas essa alteração pode simultaneamente ter modificado o movimento da pélvis, a mecânica da pedalada, a distribuição de carga ou a interação com o próprio selim.
Observámos uma resposta. Perceber por que razão essa resposta ocorreu é uma questão diferente.
Os dados não eliminam a necessidade de interpretação
A tecnologia acrescenta outra camada de informação.
Hoje conseguimos quantificar cinemática articular, distribuição de pressão, assimetrias de movimento, atividade muscular e muitas outras variáveis difíceis de observar com precisão apenas visualmente.
Mas medir não é o mesmo que compreender.
Um determinado ângulo do joelho não é, isoladamente, bom ou mau. O mesmo acontece com uma assimetria ou determinado padrão de pressão.
Precisamos de perceber o que esse valor significa naquele ciclista, naquela tarefa e naquelas condições.
Dados sem contexto podem até criar uma falsa sensação de certeza. Em vez de substituirmos uma opinião subjetiva por uma verdade objetiva, corremos o risco de substituir uma suposição por um número.
E a tentativa e erro?
Também não deve ser automaticamente entendida como uma abordagem errada.
Na realidade, alterar uma variável e observar a resposta é parte fundamental de muitos processos de Bike Fit. O problema surge quando a tentativa e erro não é controlada.
Se alterarmos várias variáveis simultaneamente, ou se não definirmos previamente aquilo que pretendemos melhorar, torna-se difícil perceber o que produziu determinado resultado.
“Estou melhor” é informação importante.
Mas podemos perguntar mais: O que melhorou? Em que condições? O que mudou no movimento? Resolvemos o problema original ou apenas transferimos a compensação para outro local?
A perceção do ciclista e as medições precisam uma da outra

Um dos aspetos mais interessantes do Bike Fit é que aquilo que o ciclista sente e aquilo que observamos nem sempre coincidem.
Isso não significa que o ciclista esteja errado. Dor, desconforto, estabilidade, confiança e perceção de esforço são informações fundamentais. Mas o local onde um sintoma é sentido não corresponde necessariamente à origem do problema.
Da mesma forma, um padrão de movimento aparentemente diferente não significa necessariamente que exista algo a corrigir.
É aqui que uma avaliação se torna mais importante do que qualquer medição isolada.
Temos de analisar o historial e as queixas do ciclista, as suas capacidades e limitações físicas, a estratégia de movimento, o equipamento, os objetivos e as exigências reais em que a bicicleta será utilizada.
Depois, podemos cruzar essa informação com dados objetivos e, sobretudo, observar como todo o sistema responde quando introduzimos uma alteração.

O Bike Fit não é a procura da perfeição
Talvez esta seja a distinção mais importante. Raramente existe um único número que determine a posição correta.
O objetivo não é fazer com que todos os ciclistas se enquadrem num conjunto pré-definido de ângulos ou coordenadas. É compreender a interação entre uma determinada pessoa e uma determinada bicicleta.
E essa interação é dinâmica.
Alterar a altura do selim pode modificar muito mais do que a extensão do joelho. Alterar o alcance pode influenciar a carga nos membros superiores, a posição da pélvis ou a forma como o ciclista interage com o selim.
Cada ajuste existe dentro de um sistema.
Por isso, antes da próxima alteração na bicicleta, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Qual deveria ser este valor?”
Mas sim:
“O que estou a tentar alterar e que evidência me permitirá concluir que realmente o melhorei?”
É nessa diferença que um simples ajuste se transforma numa avaliação.
Fernando Isaac
Bike Fit & Biomechanics Specialist
CEO iBIKE Studio



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