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Porque é que o Bike Fit está a tornar-se parte integrante da alta performance no ciclismo

19 de ago.
6 min de leitura
O ciclismo de alta performance tornou-se progressivamente mais orientado por dados.

As equipas monitorizam potência, limiares fisiológicos, carga de treino, recuperação, sono, nutrição e o arraste aerodinâmico. O equipamento é selecionado, testado e refinado de acordo com as exigências de cada atleta e de cada competição.

Ainda assim, a interface através da qual o atleta expressa essa performance — a posição sobre a bicicleta — continua muitas vezes a ser tratada como um ajuste pontual.

Durante muitos anos, o Bike Fit esteve sobretudo associado ao conforto, à gestão de lesões e à correção de posições visivelmente inadequadas. Estes continuam a ser objetivos fundamentais. No entanto, reduzir o Bike Fit à prevenção da dor ou ao ajuste da altura do selim subestima de forma significativa o seu potencial contributo para a performance.


O papel do Bike Fit está a evoluir. Está a tornar-se num processo através do qual equipas, treinadores e marcas de equipamento podem compreender melhor como o atleta produz, transfere e sustenta potência na posição exigida pela competição.



Performance é mais do que produção de potência

Um atleta pode ter capacidade fisiológica para produzir determinada potência, mas isso não significa necessariamente que consiga sustentar esse mesmo valor em qualquer posição.


Alterações na posição do selim, configuração do cockpit, comprimento do crank, posicionamento dos cleats ou ângulo do tronco podem influenciar o movimento articular, o recrutamento muscular, a estabilidade, a aerodinâmica.


No contrarrelógio e no triatlo, por exemplo, a posição com menor arrasto aerodinâmico não é automaticamente a posição mais rápida. Se o atleta não a conseguir manter, perder potência, desenvolver fadiga muscular excessiva, sentir dificuldades respiratórias, comprometer o controlo da bicicleta ou abandonar repetidamente a posição aerodinâmica, a vantagem teórica pode nunca traduzir-se em melhor performance.


O objetivo não é, por isso, identificar uma posição que simplesmente pareça aerodinâmica ou que se enquadre em intervalos angulares predefinidos. O objetivo é encontrar uma posição que permita ao atleta produzir e sustentar a performance necessária sob as exigências reais do treino e da competição.




Da avaliação visual à interação mensurável

O Bike Fit moderno pode integrar várias camadas de informação. A análise tridimensional do movimento permite quantificar como o atleta se move em diferentes planos, ajudando o profissional a avaliar cinemática articular, comportamento da pélvis, estratégias posturais e assimetrias de movimento.


Os sistemas de mapeamento de pressão permitem medir a forma como o atleta interage com o selim, os sapatos e os restantes pontos de contacto. Em vez de se perguntar apenas se um selim é confortável, torna-se possível avaliar a distribuição de pressão, a estabilidade pélvica, o movimento do centro de pressão e a forma como estas variáveis se alteram após uma intervenção.


A eletromiografia de superfície pode acrescentar informação sobre ativação, timing e coordenação muscular. Quando utilizada com um protocolo adequado, pode ajudar a investigar como alterações de posição, intensidade ou fadiga influenciam o comportamento neuromuscular.


As unidades de medição inercial permitem também prolongar a avaliação para além do laboratório. Sistemas como o LEOMO possibilitam a análise dos padrões de movimento em contexto real, ajudando a perceber se uma posição que parece estável num ambiente controlado continua estável durante esforços prolongados, subidas, terreno técnico ou intensidades específicas de competição.


Outras tecnologias, incluindo termografia, visão computacional, captura de movimento sem marcadores e medição aerodinâmica portátil, poderão expandir ainda mais a informação disponível.


No entanto, a importância destas tecnologias não está na quantidade de dados que geram.

  • O seu valor está nas perguntas que ajudam a responder.

  • Como se move o atleta?

  • Como se distribui a pressão sobre a bicicleta?

  • Que compensações surgem à medida que a intensidade aumenta?

  • Consegue o atleta manter a posição sob fadiga?

  • Uma intervenção aerodinâmica compromete a produção de potência ou a estabilidade?

  • Um novo componente melhora realmente a interação do atleta com a bicicleta ou limita-se a alterá-la?



Um processo longitudinal, não uma posição definitiva

Não existe qualquer razão para assumir que a posição ideal de um atleta permanecerá inalterada ao longo do tempo.


Adaptações ao treino, lesões, alterações de mobilidade, desenvolvimento da força, composição corporal, objetivos competitivos e mudanças de equipamento podem influenciar a forma como o atleta interage com a bicicleta.


É por isso que o Bike Fit deve ser cada vez mais entendido como um processo longitudinal.


Para uma organização de alta performance, isto pode incluir o estabelecimento de uma posição de referência, a documentação das características de movimento e pressão do atleta, a monitorização das adaptações ao longo da época e a validação das alterações sob cargas relevantes.


Pode também envolver a transferência de posições entre bicicletas de estrada, contrarrelógio, pista ou gravel, a preparação dos atletas para novo equipamento e a integração das alterações posicionais no treino antes da competição.


Uma mudança significativa de posição não deve ser introduzida poucos dias antes de uma prova importante sem que se compreenda a forma como o atleta responde.


Tal como qualquer outra intervenção de performance, exige adaptação, monitorização e validação.



O que isto significa para equipas e treinadores

Para equipas e treinadores, o Bike Fit pode tornar-se na ligação entre a capacidade fisiológica do atleta e a forma como essa capacidade é expressa sobre a bicicleta.


Pode apoiar decisões relacionadas com posicionamento aerodinâmico, treino de força, gestão de lesões, seleção de equipamento e preparação competitiva.


Pode também melhorar a comunicação entre atletas, treinadores, fisioterapeutas, especialistas em performance, mecânicos e parceiros de equipamento.


Em vez de cada departamento tomar decisões isoladas, o posicionamento do atleta pode passar a fazer parte de uma estratégia de performance integrada.



Da seleção de produto à criação de produto

A relação entre Bike Fit e equipamento também está a mudar.


Tradicionalmente, o profissional avaliava o atleta e selecionava o produto mais adequado entre as opções disponíveis. Cada vez mais, porém, os dados recolhidos no atleta podem tornar-se parte do processo de conceção e fabrico do próprio produto.


Empresas de calçado personalizado como a Lore Cycle utilizam scans individuais do pé para criar sapatos adaptados à anatomia do atleta. A Speeco desenvolve extensores aerodinâmicos e apoios de braços de acordo com os membros superiores do ciclista, a posição pretendida e a interface com a bicicleta. 


Através do programa One-to-One, a fizik utiliza mapeamento de pressão dinâmico recolhido durante uma sessão profissional de Bike Fit para produzir um selim individualizado através de impressão 3D.




O mesmo princípio pode aplicar-se à própria bicicleta. Fabricantes como a PARLEE Cycles utilizam os pontos de contacto e os dados de posicionamento do atleta para desenvolver uma geometria individual. Em vez de se limitarem a modificar um tamanho standard, podem definir as dimensões, os ângulos e as coordenadas de posicionamento necessárias para colocar o atleta na posição pretendida.


O processo de personalização pode também ir além da geometria. A disposição das camadas de carbono e as características estruturais do quadro podem ser adaptados às características físicas do atleta, às exigências da utilização e ao comportamento de performance pretendido.


Em vez de se selecionar um tamanho standard e adaptar o atleta às suas limitações, o próprio quadro pode tornar-se parte da estratégia de posicionamento e performance.


Estes exemplos apontam para uma transição importante. O Bike Fit já não se limita a ajudar o atleta a escolher o selim, o sapato, o cockpit ou o tamanho de quadro mais próximo das suas necessidades.


Pode fornecer as medidas, os dados de movimento e os requisitos de performance necessários para criar uma solução em torno do atleta.


A distribuição de pressão pode informar a estrutura de um selim. A morfologia do pé e a mecânica da pedalada podem orientar o desenvolvimento de calçado e palmilhas. O posicionamento aerodinâmico pode definir a forma e as dimensões de um sistema de extensores. As coordenadas de Bike Fit e os requisitos do atleta podem determinar a geometria do quadro, a configuração do cockpit e até o comportamento estrutural da bicicleta.


Dados agregados sobre posicionamento podem também ajudar os fabricantes a repensar geometrias, tamanhos e capacidade de ajuste dos cockpits em futuras gamas de produtos.

Para as marcas de equipamento, a oportunidade é, por isso, maior do que fornecer produtos a atletas ou patrocinar equipas. 


O Bike Fit pode tornar-se parte do processo de investigação, desenvolvimento e validação através do qual melhores produtos são criados.



A tecnologia não substitui o conhecimento especializado

A crescente utilização de tecnologia exige também cautela. Mais sensores não conduzem automaticamente a melhores decisões.


Dados sem uma pergunta clara, um protocolo fiável ou uma interpretação adequada podem acrescentar complexidade sem melhorar os resultados.


A tecnologia pode medir movimento, pressão, ativação muscular e arrasto aerodinâmico. Não consegue determinar, de forma autónoma, qual o compromisso mais adequado para um determinado atleta, disciplina ou objetivo competitivo.


O futuro do Bike Fit deve ser informado por dados, mas liderado por especialistas. A questão para as organizações de alta performance já não é apenas saber se a bicicleta se adapta ao atleta.


É perceber se o posicionamento do atleta está a ser gerido com o mesmo nível de precisão aplicado ao treino, à nutrição, à aerodinâmica e ao equipamento.


Porque a performance não depende apenas da quantidade de potência que um atleta consegue produzir. Depende da quantidade dessa potência que consegue transferir, sustentar e utilizar quando realmente importa.


Fernando Isaac

Bike Fit & Biomechanics Specialist

CEO iBIKE Studio


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